O INEVITÁVEL MUNDO NOVO

Por Manoel Messias de Sousa

No curso das transformações da sociedade e das organizações, as palavras: mudança, inovação, foco, propósito, estratégia, competência, habilidade, atitude, resultados, sustentabilidade, responsabilidade social e ambiental, empreendedorismo, equipes autodirigidas, plataformas, aplicativos, carreira profissional, individual e gerencial, ética e cidadania, robótica, inteligência artificial, neurociência são palavras chave, marcantes na administração de corporações na sociedade contemporânea. Tudo isso e muito mais faz parte, hoje, do portfólio das instituições sociais e das organizações e negócios. As mudanças no mundo contemporâneo “são velozes, fruídas, fundamentais e drásticas” (Gary Hammer).

OS PARADOXOS ENTRE OS VELHOS E OS NOVOS PARADIGMAS

O fenômeno considerado mais relevante, do século 21, é a veloz e drástica mudança e transformação de quase tudo. Os velhos paradigmas, em confronto com as novas realidades científicas e tecnológicas formam o grande paradoxo que está em conflitos com a geração do hoje e, sem dúvida, com maior ênfase, com as gerações futuras. O mundo é plano, as relações entre instituições, pessoas, transações financeiras, comerciais, ocorrem de forma exponencial em tempo real.

O ciclo do conhecimento encurta a cada dia, o trabalho idealizado pelos pensadores clássicos, as funções, cargos e carreiras profissionais nos moldes tradicionais estão desaparecendo em velocidade vertiginosa, em face às novas tecnologias. Tais fenômenos demandam uma nova consciência humana, novos saberes, novo pensar e competências e habilidades inovadoras na formação de profissionais aptos para enfrentar os desafios do novo mundo do trabalho e da gestão.
A transição entre o viver analógico, que teima em permanecer, e a vida digital inspirada e concretizada pela neurociência e inteligência artificial, que chega de forma agressiva e avassaladora, são imensos obstáculos para a criação ou renovação de uma nova consciência que faça aflorar numa geração centrada nas reminiscências do passado e no saudosismo, o rompimento dos velhos paradigmas e a inculturação de forma ampla, as tecnologias emergentes que estão transformando o mundo. VIVEMOS UM INEVITÁVEL MUNDO NOVO.

As redes sociais, “frutos da vida digital, transformaram a mídia, a comunicação interpessoal, o mundo do trabalho, a economia, as organizações e até a política”. Entretanto, a formação do administrador profissional no Brasil, reconhecidamente desalinhada e atrasada em relação às demandas do mundo empresarial globalizado e movido pelas tecnologias emergentes, insiste em continuar analógica. Poucos ensaios de uso da tecnologia educacional foram adotados pelas Instituições de Ensino Superior (IES), na época da pandemia, mas somente na perspectiva operacional, com o fito das IES ajustarem-se às novas regras legais do Ministério da Educação, não avançando na idealização de novos métodos, estratégias, técnicas e processo pedagógicos de ensino aprendizagem que acenasse com o rompimento dos velhos paradigmas educacionais e propusesse uma formação do profissional de administração inovadora e alinhada aos desafios dos tempos atuais e do futuro.

Diante desses paradoxos, é necessário refletir sobre a engenharia pedagógica da formação dos quadros docentes e as estratégias e técnicas do Ensino Superior de administração e negócios no Brasil. A prática consolidada pelas escolas de administração e negócios, trata de buscar no mercado profissionais graduados e pós-graduados, em áreas de conhecimentos específicos, para formarem seus quadros docentes. Essa prática explicita o “primeiro nó górdio” do processo de recrutamento e seleção docente: os profissionais graduados em ciências humanas, sociais e particularmente em administração foram, na sua maioria, formados com perfil para o mercado e não para a docência. Mesmo assim, por motivações diversas lançam-se na aventura do magistério. Aqui, talvez, esteja o gargalo do ensino das teorias de administração, organização e disciplinas afins, idealizadas e pensadas em realidades sociais, históricas, humanas e técnicas do passado, sem dúvida, incongruentes com os paradigmas e demandas dos tempos contemporâneos.

ENTRAVES E PERSPECTIVAS DA FORMAÇÃO DO ADMINISTRADOR DO FUTURO

Nesta perspectiva as teorias, saberes e metodologias de ensino do presente, são muitas vezes, reducionistas e ultrapassadas. Por outro lado, à tradição e as práticas docentes da contemporaneidade, sem formação pedagógica adequada e alinhamento estratégico com os conhecimentos interdisciplinares, transversais, multifuncionais, complementares e as novas demandas de um mundo globalizado e sem fronteiras, é sem dúvida, o grande óbice da formação ideal do administrador profissional. Por outro lado, os cursos de pós-graduação lato e stricto sensu em administração, também, não formam profissionais para o ensino superior, seu foco na grande maioria, é a melhoria da performance do profissional de mercado e complementarmente para a pesquisa.

Respeitando à cultura de cada época e o jeito de ser docente no ensino de administração de décadas passadas e quem sabe da atualidade, interpela-se sobre o passado formativo em administração, em grande parte, dominado pela tendência professoral que, no livre arbítrio da cátedra, adotava as mesmas atitudes, experiências e métodos didáticos pedagógicos do seu tempo, dissociados inteiramente da realidade e dos desafios do mundo atual.

A formação do administrador profissional está a exigir uma revolução disruptiva centrada na denominada Educação 4.0 que utiliza novas ferramentas e plataformas digitais e de diálogos inter e intrapessoal. Esta modalidade de ensino avança com o uso de recursos tecnológicos fantásticos (big data, inteligência artificial, a internet das coisas e tantas outras), que serão fundamentais para vencermos nosso atraso educacional crônico.

Neste contexto, vem à mente as primeiras interpelações: no mundo globalizado, rico em produção literária sobre comportamento humano, filosofia, métodos comparados, organizações, administração e gestão de negócios, empreendedorismo, mudança e inovações tecnológicas, INDAGA-SE DE ONDE VEM as inspirações e a fundamentação histórica, teórica e prática sobre a formação do administrador profissional? Segundo Magaldi e Salibi Neto (2018.p.240). Viemos da época da máquina a vapor e atingimos, hoje, a 4ª Revolução Industrial. Continuam com uma segunda indagação ou interpelação, considerando a evolução dos dois últimos séculos, ONDE ESTAMOS HOJE? E afirmam, "em um mundo em ebulição, aberto, sem fronteiras e com um olhar para o futuro diferente de antigamente". Fazem, ainda, prognósticos de que o ciclo de vida de uma empresa está na ordem de 15 anos e vão além afirmando que 3⁄4 das maiores empresas do mundo serão empresas que não existem mais em 2025. Para eles o ser humano está confuso e tem dificuldades em perceber o ritmo das mudanças tecnológicas. Concluindo, indagam numa perspectiva futurista: PARA ONDE VAMOS? E concluem, “rumo a novos paradigmas na gestão com diferenças profundas em relação ao modelo clássico: ao invés do foco na oferta, focar no crescimento da demanda; em vez de focar na posse de ativos, focar na construção de comunidades, em vez de focar em custos, focar em oportunidades. Focar em incentivos a interações na sua rede de relacionamentos, em vez de focar em otimização de custos.

Para Magaldi e SALIBI (2018) "emergem novos modelos de negócios - plataformas de negócios. Os conceitos dos vetores 1 e 2 de crescimento aliam melhoria contínua incremental, com inovação disruptiva". Na visão dos autores, o contexto atual apresenta desafios imensos para a educação. Por exemplo: 50% do conteúdo adquirido num ano de um curso regular, em uma instituição de ensino superior, torna-se obsoleto no 4º ano. Percebe-se que 45% das tarefas executadas por seres humanos, hoje, serão automatizadas no futuro. Estamos diante de uma nova filosofia de educação para um novo mundo e conclamam a "adentrarmos no admirável mundo novo". Em síntese, vejamos as mudanças consolidadas do início do século XXI.

O microcomputador revolucionou o mundo do trabalho e da pesquisa; há previsões de que os computadores se tornarão mais inteligentes do que humanos em 2030; este é um fenômeno do denominado mundo novo que já estamos vivendo e promete muito mais. UBER, é apenas uma ferramenta de software, não possui veículos e é considerada a maior empresa de táxi do mundo; O AIRBNB, é a maior empresa hoteleira do mundo, embora não possua propriedades; Amazon, revolucionou a produção intelectual e suas redes de distribuição mundial; Netflix, popularizou a indústria cinematográfica; O e-commerce está revolucionando o velho paradigma comercial; A Internet é o maior instrumento de comunicação do mundo; Google é o maior banco de dados, tecnologia e comunicação mundial; Facebook, Instagram, Whatsapp são revolucionários instrumentos de comunicação social; As câmaras digitais foram substituídas por Smartfone - Aparelhos médicos atrelados ao Smartfone tornaram o atendimento especial em saúde; Aplicativos que detectam mentiras em casos de confrontos e acusações; Bitcoin - moeda virtual com tendência a se tornar moeda mundial; Veículos movidos a combustíveis fósseis desaparecerão nos próximos dez anos - carros elétricos se tornarão populares em 2030, estes carros já são uma realidade; As oficinas de reparação de automóveis desaparecerão; Bombas de gasolina desaparecerão; A maioria das montadoras tradicionais irá à falência, tentarão a abordagem revolucionária e apenas construirão carros - enquanto as empresas de alta tecnologia ( TESLA, APPLE, GOOGLE etc.) construirão computadores sobre rodas; A energia eólica e solar terão crescimento exponencial. A inteligência artificial: os computadores tornam-se exponencialmente melhores na compreensão do mundo; O teletrabalho vai mudar os sistemas de móveis atuais, porque você pode trabalhar, enquanto se desloca. As startups vem inundando o mundo do trabalho com magnífica produção de plataformas e aplicativos dos mais diversos campos dos negócios, das organizações e do trabalho. Estamos diante de uma verdadeira revolução dos métodos, processos de trabalho e da gestão, com repercussão direta na formação profissional em todas as áreas do conhecimento.

Na nova era o ensino de administração vai ser reinventado a cada dia, exigindo dos profissionais docentes, conhecimentos reais dos fenômenos mudancista da contemporaneidade, inclusive abertura para compreender os fenômenos mudancistas que estão aflorando no nosso dia-a-dia na sociedade e nas organizações. Para tanto, precisa-se abertura para compreender que administração não é uma ciência exata e que o ensino - aprendizagem não se dá somente através dos compêndios especializados de determinadas áreas específicas de conhecimentos.

A essência do ensino aprendizagem em administração está na pedagogia do SABER PENSAR, para aguçar o senso crítico e interpelar-se diante das dissonâncias de entendimentos contrários, fenômenos culturais vigentes e emergentes, cenários, tendências e incongruências humanas e ambientais; SABER SER - CONVIVER, para posicionar-se com civilidade nos ambientes sociais e de trabalho; Construir e manter redes de relacionamentos, testemunhando valores éticos, harmonizando e incentivando o diálogo social e organizacional na construção de uma civilização humanizada e protagonista no mundo do trabalho e das organização; SABER FAZER, cultivar o estado da arte através da leitura, interpretação de estratégias organizacionais e da prática dos processos de trabalho cotidianos: alinhando criatividade, conhecimentos, competências, habilidades e atitudes à dinâmica da programação, organização, direção e controle nas tomadas de decisões; aqui se faz uma referência aos pilares da educação apresentados por Delors, fazendo alusão a educação para o século XXI; acrescenta-se também o SABER AVALIAR E JULGAR, domínio dos métodos e técnicas de pesquisas em administração, para entender estratégias, avaliar relatórios e diagnósticos, propondo correções, inovações e melhorias de processos ou os rumos estratégicos do ensino de administração para o século XXI.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente texto expressa uma síntese reflexiva sobre o tema: O Inevitável Mundo Novo, versando sobre os paradigmas que nortearam o ensino superior de administração no passado e inspirando pistas para novos modelos de ensino aprendizagem para o futuro. Por outro lado, discorre sobre as mudanças do início do século XXI e os impactos na vida das pessoas, das organizações e na formação superior do administrador profissional.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Magaldi Sandro e Neto José Salibi. Gestão do Amanhã: Tudo o que você
precisa saber sobre gestão, inovação e liderança para vencer na 4ª
Revolução Industrial. Editora Gente. São Paulo, 2018.

2- Um Novo Olhar para o Futuro. As perspectivas dos CEOs do Brasil e do
Mundo só crescem, Ameaças, Prioridades, Estratégias e Compromissos
ESG. 25a CEO Survey, 2022.

3- Identidade e Missão da Educação Superior Marista em uma Nova Terra. V
Encontro de Universidades Maristas. Cidade do México. Outubro de 2012.

4- Delors, Jacques. EDUCAÇÃO: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. 5ª edição – São Paulo: Cortez: Brasília, DF: MEC: UNESCO, 2001.

 

SOBRE O AUTOR

 

(1) Administrador, especialista em Administração de Recursos Humanos pela UECE; Especialista em Processo de Direito Canônico pela Universidade Católica de Petrópolis; Mestre em Administração de Empresas pela UECE; Livre Docente em Administração Geral pela UECE. Diretor de Recursos Humanos da UECE; Diretor Pro Tempore do Centro de Estudos Sociais Aplicados da UECE; Coordenador do Programa de Pós graduação do CESA|UECE; Membro fundador e primeiro Diretor Executivo do IEPS|IEPRO da UECE; Professor aposentado do Curso de Administração da UECE; Professor e coordenador do Curso de Administração da Faculdade Católica Rainha do Sertão - FCRS; Coordenador e Procurador Institucional do Centro Universitário Católica de Quixadá; Vice Presidente do Conselho de Ética da FCRS|UNICATÓLICA; Presidente do Conselho de Ensino e Pesquisa da UNICATÓLICA; Presidente do Conselho de Administrativo da UNICATÓLICA; Reitor do Centro Universitário Católica de Quixadá - UNICATÓLICA; Vice Presidente do Conselho Curador da Fundação de Cultura e Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão - FUNCEPE; Membro da Academia Cearense de Administração - ACAD, ocupando a Cadeira número 13.

Manoel Messias de Sousa

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